.:XXVII CONACI:.

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SENSIBILIDADE É FORÇA, AFIRMA
ATRAÇÃO DO FÓRUM DA MULHER

“Ao contrário do que se imagina, irreverência e ousadia são qualidades da sensibilidade feminina e essa é a nossa força. Verdadeiramente, ser sensível é que é ser forte”. Quem faz tal afirmação é Karla Karenina, que será a atração do 6º Fórum da Mulher, que integra a 27ª edição do Congresso Nacional de Corretores de Imóveis (Conaci), que acontece de 4 a 6 de setembro, no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.

Natural de Fortaleza, Karla Karenina é atriz, tendo se notabilizado na década de 1980 com a personagem Meirinha, que a levou à Escolinha do Professor Raimundo, um dos clássicos do humorismo televisivo de Chico Anysio.

Atualmente, em meio a uma série de atividades, atende também como terapeuta junguiana na técnica de regressão. Poetisa, cantora e faixa verde de karatê, dá palestras, cursos e ainda encontra tempo para militar em causas sociais.

Karla Karenina é um motivo a mais para você participar do XXVII Conaci. Confira entrevista com ela, saiba quem mais estará lá, acessando www.conaci.com.br, e faça já sua inscrição.

Antes de mais nada, em seu perfil, consta ter sido coordenadora de ABC. O que isso quer dizer?

O Projeto ABC (que significa Aprender, Brincar e Crescer) era um projeto do governo do Estado para crianças e adolescentes de escola pública, que oferecia atividades extras, como artes, esportes, alimentação e reforço escolar, no turno que o educando não estava na escola. Foi uma experiência incrível para mim que sempre fui ligada à educação e às artes.

Está dito lá também que você foi coordenadora de CAPS, que são os centros de atenção psicossocial, um serviço muito importante, principalmente para os menos favorecidos. Qual sua experiência nesse sentido?

Entrei para esse outro serviço público a convite do secretário de Saúde do município de Fortaleza, que pretendia incluir a arte como parte do tratamento dos usuários da saúde Mental do município. Uma experiência inovadora e muito importante nos cuidados terapêuticos da população acometida por transtornos mentais e dependência química. A unidade que coordenei era destinada ao tratamento de usuários dependentes de álcool e outras drogas e ali descobri o verdadeiro sentido das expressões “afogar as mágoas” e “viajar”. As pessoas ainda têm pouco conhecimento desse tipo de dependência e precisam saber que os dependentes químicos não são assim por querer. São pessoas sofridas, que têm um histórico de abusos na infância e outros fatores que os levam a procurar alívio nas substâncias que estão ao seu alcance. A arte é um poderoso instrumento na recuperação da autoestima e ressocialização desses indivíduos que perderam a capacidade de criar, de se acharem capazes de produzir e interagir com seus entes e comunidade, porque são tidos como “problema” e “inúteis” e ainda “perigosos”. Para tirá-los desse contexto estigmatizante, é necessário oferecer a eles acolhimento, cuidados médicos e outras alternativas que o recuperem emocional e socialmente. Nessa época fiz formação em Arte Terapia.

O que a levou a se tornar uma terapeuta junguiana na área de regressão?

Na verdade, meu mestre Roger Woolger (1944-2011, psicoterapeuta, palestrante e autor britânico-americano, especializado em liberação de espírito de regressão a vidas passadas) é que é junguiano. Eu, só por tabela. Quando conheci a área da saúde mental no Caps, me apaixonei ainda mais pelas ciências da alma e, na mesma época, fiquei sabendo da formação que Roger vinha dar aqui no Ceará. Não tive dúvidas de que queria fazer. Foram 3 anos de Formação Intensa para me tornar terapeuta de regressão de memória e, tanto quanto ser artista, sou apaixonada pela profissão. Não tem nada mais gratificante do que ajudar as pessoas a se libertarem de traumas, bloqueios, dores e questões mal resolvidas do passado.

A personagem Meirinha, que a levou a atuar ao lado de um dos mestres do humor, Chico Anysio, foi concebida a partir do quê?

A Meirinha tem como inspiradoras mulheres do povo, domésticas que passaram pela minha casa na infância. Essas mulheres têm uma força incrível. Elas aprenderam com a dureza da vida a lutar pela sobrevivência numa condição social e financeira inferior, mas não perderam sua identidade, suas raízes, sua espontaneidade e sua pureza. Falando errado, se vestindo de forma extravagante não perderam sua sensualidade, sua autoconfiança, seus sonhos. A Meirinha é a personificação dessas mulheres que sempre me chamaram a atenção. À primeira vista, julgadas como engraçadas, alvo de deboches e “mangações”, como se diz no Ceará, mas de dar inveja a muitas que tiveram todas as condições de estarem no topo da pirâmide social e não têm tanta coragem de se assumir como são. Enfim, a Meirinha é a minha criação mais ousada e preciosa! Essa personagem me levou para outros mundos e outros patamares da vida pessoal e profissional. Sou apaixonada pela Meirinha.

Você diz que por trás da maquiagem rebuscada e do jeito expansivo de Meirinha existia uma “criança desamparada, insegura e triste”. Como assim? E o que mudou de lá para cá?

Sim. Eu tinha um complexo de inferioridade que me atormentava até mesmo depois de ter ido para Rede Globo, fer feito filmes e tal. Acho que por isso criei a Meirinha. Inconscientemente, eu tentava, através da irreverência dela me superar, me “vingar” (risos). Acabou dando certo, né? Depois de tanta terapia, entendi que a Meirinha não era de todo uma fantasia que me fazia sentir uma “farsa”, como eu me achava que era. Depois de regressões à infância e adolescência durante a minha formação em regressão de memória, descobri o porquê de todo esse sofrimento interno, que as pessoas jamais podiam imaginar que eu tivesse, e, enfim, pude me legitimar como pessoa sem precisar da “armadura”, da “máscara” que a Meirinha era pra mim. Mas que foi muito útil por muito tempo. Eu pude me assumir como artista de cara limpa, como eu. A partir daí pude encarnar outros papéis e outras vertentes profissionais e pessoais. Sinto-me integrada hoje. Mente, corpo, emoção, espírito Era como se eu fosse antes um bocado de pedações soltos. Agora um quebra-cabeças quase completo. Mais ou menos assim.

Como a personagem Meirinha se encaixa (ou se encaixava) no universo da mulher brasileira?

A Meirinha é a mulher que sai do seu torrão natal em busca de trabalho e melhores condições de vida. É a mulher que quer ser ouvida, quer realizar seus sonhos, e tira leite de pedra para conseguir isso. E, enfim, consegue ser reconhecida pelos seus próprios valores e vive a sua verdade independentemente do que a sociedade impõe como condição sine qua non.

Como você vê o papel da mulher em nossos dias?

Um papel importantíssimo de levar a sua sensibilidade como força. Não é deixando de sermos femininas e nos igualando aos homens no que diz respeito às características físicas que fazemos a diferença. É justamente com nossas características próprias que colaboramos com uma sociedade mais igualitária, mais plural e justa. A mulher é, por natureza, uma grande administradora com o ingrediente saboroso da amorosidade e cuidado com os que estão ao seu redor. A sociedade em geral precisa desses componentes para atenuar a dura corrida desenfreada da humanidade pela sobrevivência material e emocional.

Quais os retrocessos que ainda persistem, quais os avanços?

O machismo é ainda uma cultura arraigada entre as próprias mulheres, sem falar nos homens de uma forma geral. Avançamos com algumas leis e discussões que estão vindo à tona e vemos mais mulheres em muitas atividades de poder, mas ainda precisamos avançar muito mais.

Quais das suas inúmeras atividades mais a satisfazem no momento?

Ser atriz e interpretar vários papéis é sempre mágico e encantador. Ser terapeuta e promover a transformação do estado emocional e físico das pessoas é fantástico. E ser palestrante me proporciona um contato com várias pessoas, onde posso falar e dividir com elas todas essas minhas tão ricas vivências.

Em sua apresentação no Fórum da Mulher, dentro da programação do XXVII Conaci, a conversara versará sobre a importância da irreverência e da ousadia na construção feminina. Como você sintetizaria essa proposta?

Nesse tema, através da minha própria história de vida e profissional, dei-me conta de como é mais comum do que se imagina ser uma mulher que venceu pela irreverência e ousadia. Essas qualidades, que antes eram consideradas “inapropriadas” para uma mulher, estão em todas nós mulheres e nós podemos validá-las e legitimá-las para vivermos melhor nossas experiências pessoais e profissionais. Estimulo outras mulheres a perceberem em si também essas qualidades como condições próprias, mas de forma lúdica e prazerosa. Ao contrário do que se imagina, irreverência e ousadia são qualidades da sensibilidade feminina e essa é a nossa força. Verdadeiramente, ser sensível é que é ser forte.

 

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